O impacto do entorno urbano no desempenho térmico e lumínico de habitações multifamiliares sociais no Brasil: uma perspectiva multidomínio

Autor:
Júlia Bagio
Orientador:
Roberto Lamberts; Coorientador: Renata De Vecchi
Resumo:

O déficit habitacional brasileiro, concentrado sobretudo entre famílias de baixa renda e acentuado pelas desigualdades socioespaciais urbanas, evidencia que o acesso à moradia adequada permanece um desafio no Brasil. Nesse contexto, as habitações de interesse social (HIS), a exemplo de empreendimentos do Programa Minha Casa Minha Vida, costumam ser implantadas em grandes conjuntos padronizados, frequentemente localizados em áreas periféricas e com inserções urbanas pouco favoráveis, onde edificações próximas entre si tornam‐se o principal entorno umas das outras. Essa configuração pode comprometer simultaneamente a disponibilidade de luz natural e o desempenho térmico das unidades habitacionais. Considerando esses desafios, este trabalho avaliou o impacto do cenário urbano — em especial altura, afastamento e refletância das fachadas — no desempenho térmico e lumínico de HIS no Brasil, a partir de uma abordagem multidomínio fundamentada em normas brasileiras. O método consistiu na modelagem paramétrica das tipologias pósPortaria MCID nº 725/2023 e na realização de simulações em três cidades de climas contrastantes (Belém, Florianópolis e Canela). O desempenho lumínico – simulado com o ClimateStudio dentro dos softwares Grasshopper e Rhinoceros 3D – foi avaliado pela autonomia da luz natural espacial (sDA) para as iluminâncias de 60 e 200 lux, conforme a nova proposta para a Seção 13 da NBR 15575-1. O desempenho térmico – simulado com o EnergyPlus – foi analisado por meio das métricas percentual de horas de ocupação dentro de uma faixa de temperatura operativa (PHFT), temperatura operativa máxima (Tomáx) e temperatura operativa mínima (Tomín), conforme critérios da NBR 15575-1. Refletâncias, percentuais de elementos transparentes, número de pavimentos e distâncias do entorno foram variados sistematicamente, resultando em simulações cujos resultados foram sintetizados em um painel interativo no Power BI. Os resultados mostram que o impacto do entorno urbano varia significativamente entre cidades: Belém beneficiase de refletâncias altas; Florianópolis apresenta comportamento híbrido, com ganhos e perdas dependentes do pavimento; e Canela exige maior exposição solar, sendo fortemente penalizada por sombreamento e a presença de varandas nas unidades habitacionais. Observou-se também que a mesma estratégia projetual pode atender ao desempenho térmico e falhar no lumínico — ou o oposto — dependendo do clima e do pavimento avaliado da edificação, reforçando a relevância da abordagem multidomínio. Essa divergência evidencia que decisões arquitetônicas, por si só, são insuficientes: é necessário articular projeto arquitetônico, diretrizes urbanísticas e normas técnicas para garantir atendimento a critérios de desempenho mínimos de habitabilidade. Conclui-se que o desempenho ambiental de habitações sociais brasileiras depende simultaneamente da forma urbana, da arquitetura e das características climáticas e geográficas de um espaço, e que normas brasileiras baseadas em requisitos únicos não refletem essa complexidade. A integração entre projeto arquitetônico, projeto urbano e regulamentação emerge como condição essencial para assegurar desempenho térmico e lumínico mais equitativos no território brasileiro.

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